Por Que o “Full Bush” Explodiu no Mundo — e o Que Isso Diz Sobre a Cultura da Depilação em 2026

o famoso "full bush"

Ah, verão. A estação dos pés na areia, do nariz empapado de protetor solar e, aparentemente, do retorno triunfal do full bush.

Isso mesmo. Depois de anos de depilação brasileira, laser e lâmina, os pelos pubianos voltaram a ser assunto. E não só nas praias — mas em todos os cantos do TikTok, do Instagram e, provavelmente, do seu grupo no WhatsApp. Em 2025, a frase “full bush in a bikini” — biquíni com pelo mesmo — viralizou tanto que quase desbancou o “hot girl summer” como slogan da temporada. Em junho daquele ano, a marca americana Billie, que se define como “defensora histórica da positividade corporal”, se uniu à marca de joias de Los Angeles Ian Charms para lançar uma corrente de biquíni com slogans bem-humorados em referência à tendência, incluindo as palavras “fuzzy” (peludo) e “bushkini”. As modelos da campanha? Orgulhosamente peludas, claro.

Conheça as especialistas: Rachel Gibson é escritora, pesquisadora e fundadora do popular site e perfil no Instagram The Hair Historian. Holly Cummings, MD, é professora associada de obstetrícia e ginecologia clínica da Universidade da Pensilvânia. Shawnee Brew, PsyD, é psicóloga clínica licenciada em San Diego.

Mas além dos hashtags criativos e dos produtos bem-humorados, muita gente se pergunta se a tendência representa mais do que uma simples escolha de beleza — talvez seja um movimento, uma rebeldia, ou até uma forma de liberdade que a gente nem sabia que precisava. Ou talvez seja simplesmente mulheres abraçando o que é saudável e natural. Seja como for, é uma moda que está crescendo — em todos os sentidos.

Então, o que fez o pêndulo balançar para longe das ceras e dos kits de lâmina? Por que nos importamos tanto com o que a outra pessoa tem dentro do biquíni? E o mais importante: o que é melhor para o nosso corpo? Para responder a essas perguntas, vamos mergulhar fundo na história, na psicologia, nos benefícios para a saúde e, sim, no peso cultural que carregam os pelos pubianos.

Rodeando o assunto.

Essa história começa, sem surpresa, há milhares de anos. A depilação pubiana foi uma longa estrada de expectativas culturais, normas de gênero e, de vez em quando, métodos verdadeiramente assustadores. Arsênico e cal virgem? Lâminas feitas de conchas? Pedra-pomes e fogo? Nem pensar. E… ai.

Os antigos egípcios — mulheres e homens — foram dos primeiros a experimentar a remoção total dos pelos do corpo, tanto por higiene quanto como demonstração de status social, muitas vezes usando técnicas de sugaring que, aliás, ainda são populares hoje. Gregas e romanas seguiram o mesmo caminho, depilando e chamuscando a pele como sinal de status, refinamento e pureza. “Ao longo da história, culturas de todo o mundo — das civilizações antigas da Índia e do mundo árabe à África e às Américas —praticaram a remoção dos pelos pubianos”, afirma Rachel Gibson, escritora, pesquisadora e fundadora do site e perfil no Instagram The Hair Historian. A higiene era um fator, mas não o único; as motivações eram diversas e muito pessoais. “Os gregos, por exemplo, viam os pelos pubianos como algo de bárbaros — sentimento refletido nas esculturas clássicas do período”, diz Gibson.

No século 20, o cuidado íntimo passou a ser moldado pelo ideal feminino do pós-guerra: a mulher deveria não apenas voltar para a cozinha, mas ser suave, lisa e bela a qualquer hora do dia. Foi aí que as empresas de depilação começaram a nos dizer que nossos pelos “indesejados” precisavam ir embora — e seus produtos se estabeleceram de vez nas prateleiras dos banheiros do mundo inteiro.

A ascensão da lâmina.

Essa mensagem me influenciou — para o bem ou para o mal. Sendo honesta: eu não gosto de pelos no corpo. Me incomoda — especialmente os dos outros. Para mim, não tem coisa pior do que entrar num banheiro público e encontrar um pelo pubiano alheio no vaso, esperando por mim. Me dá ânsia. Pensa comigo: meu maior medo é ser assassinada brutalmente. Meu segundo maior medo é engolir um pelo.

Nem sempre foi assim, porém. Naqueles anos de ensino médio, antes de ter namorado, eu lavava, condicionava e até secava o cabelo lá de baixo com capricho. Ela vivia bem penteada — mesmo que só eu a visse. Aos 19, estava completamente lisa e assim fiquei. Para mim, é uma questão de limpeza percebida. E não estou sozinha: segundo um estudo recente, o principal motivo citado para a depilação é a sensação de que a prática “me faz sentir limpa”.

Mas os pelos pubianos têm funções biológicas muito importantes, incluindo agir como barreira contra o atrito, regular a temperatura e criar uma proteção natural contra bactérias. “A função principal é proteger a pele sensível da região genital, que é suscetível ao atrito durante a atividade sexual”, explica Holly Cummings, MD, professora associada de obstetrícia e ginecologia clínica da Universidade da Pensilvânia. “Os pelos pubianos também ajudam a impedir que germes entrem na vagina e podem até ter um papel na atração sexual, ajudando o corpo a produzir ou espalhar feromônios. Não existe absolutamente nenhuma razão médica para removê-los ou aparar.” Diante de tudo isso, não é à toa que manter os pelos por lá possa parecer a escolha mais saudável.

O que nos traz ao presente.

full bush

O bush está de volta (especialmente nos biquínis).

Em 2025, quando a tendência explodiu, as mulheres já priorizavam conforto e bem-estar. A resistência à depilação pubiana se tornou uma forma de reconquistar o próprio corpo e desafiar normas sociais. Assim como tantas publicações sobre “escolher o urso”, as mulheres passaram a escolher também os pelos. O sentimento ressoa especialmente entre a Geração Z. Naquele mesmo estudo, apenas 23% das mulheres disseram remover completamente os pelos pubianos — os outros 77% fazem uma combinação de aparar, modelar e deixar crescer naturalmente.

A tendência vai além da estética, também. É uma libertação mental e emocional de anos de sessões dolorosas de cera e de um ciclo interminável de manutenção. “Nem sempre tive um full bush — na adolescência e no começo dos vinte anos, raspava tudo porque achava que era obrigação”, diz Marielle Greguski, 32 anos, modelo e atriz de Nova York, que admite que crescer acima do peso e depois emagreceu significou buscar validação no olhar masculino. “Você ouve coisas a vida toda como mulher sobre o que os homens gostam, e acha que precisa se adaptar. Com o tempo, enjoei. Me cansei de gastar tanto tempo, dinheiro e energia para parecer que nunca tive pelos lá baixo.”

A depilação é tão associada ao físico que raramente pensamos no custo emocional que essa pressão nos causa. “Desde muito novas, meninas — e depois mulheres — são ensinadas a adaptar seus corpos para um público externo: os homens”, diz a psicóloga clínica Shawnee Brew, PsyD, de San Diego. “Do meu ponto de vista, isso causa uma série de danos. Primeiro, aprendemos que nossos corpos não são inteiramente nossos. Segundo, internalizamos a mensagem de que não somos suficientes, que precisamos nos adaptar aos desejos dos outros independentemente do que escolheríamos para nós mesmas.”

Para Wendy Salazar, 33 anos, do Texas — entusiasta de Pilates e bem-estar, ex-motorista de entrega e formada em microbiologia pela UT Austin —, havia também questões culturais em jogo. “Eu depilava tudo — braços, pernas, tudo, todo dia — porque cresci mexicana e fui ensinada a ter vergonha dos meus pelos.” Quando começou a trabalhar como motorista, deixou os pelos dos braços e pernas crescerem e, eventualmente, os pubianos também. “Me senti mais segura, mais forte, como se estivesse reconquistando meu corpo”, conta. “Tive parceiros que adoraram, e isso me ajudou a ver minha própria feminilidade com outros olhos. E honestamente? O sexo ficou melhor. Tem textura, tem presença, não tem nada para esconder.”

Como alguém nascida com uma cabeleira preta e espessa (que felizmente desapareceu quando cresci), consigo me identificar com esses sentimentos. No ensino médio, comecei a clarear os pelos dos braços (e continuo até hoje). E como não gosto de pelos no corpo, depilo tudo toda vez que tomo banho. Pode parecer excessivo, mas no fim do dia minha região íntima já tem uma sombra de cinco horas que rivalizaria com qualquer personagem de novela. Juro que às vezes ela me parece pedir um cigarro e um uísque.

Mas minha rotina diária de depilação pode não estar fazendo nenhum favor à minha saúde íntima. Em casos raros, remover os pelos pode até causar problemas. “Pode colocar a pele delicada da vulva em risco de irritação”, diz a Dra. Cummings. “Depilar mal pode causar assaduras ou cortes, e pelos encravados podem inflamar e gerar infecções de pele. A cera também pode queimar ou machucar a pele se feita incorretamente.” E, como não deve surpreender ninguém que já sentiu o cheiro, os químicos dos cremes depilatórios podem ser agressivos e causar irritação vulvar.

Tendência passageira ou uma nova era?

Então, para onde vai tudo isso? O movimento do full bush está criando raízes mais profundas desta vez? “Acho que hoje existe uma tendência maior em direção à aceitação e à individualidade quando se trata de aparência pessoal”, diz Gibson. “Há muito menos pressão para se conformar a um único padrão, e as pessoas estão mais abertas à ideia do ‘cada um no seu’. Francamente, a maioria não parece se importar tanto com o que os outros fazem com a própria aparência.”

Salazar concorda e percebe uma mudança significativa de atitude. “Tendências de beleza são exatamente isso — tendências. Mas o que vejo acontecendo com o ressurgimento do full bush não é só rebeldia, é reconquista. É mulheres dizendo: ‘Este é o meu corpo, e eu decido o que é bonito, o que é poderoso.’ Seja por rejeitar o olhar masculino ou simplesmente por dizer ‘não estou fazendo isso por ninguém além de mim mesma’, há liberdade nisso.”

Uma liberdade que a Dra. Brew acredita estar muito atrasada. “Minha esperança é que estejamos entrando numa era em que as mulheres questionem essas decisões a partir de um lugar de agência, segurança e, honestamente, egoísmo saudável”, diz ela. “Seu corpo, sua escolha — esqueça qualquer pessoa que não esteja disposta a respeitar isso — é o que tento transmitir para minhas pacientes.”

E se você quiser exibir um full bush por aí, saiba que a manutenção é mínima. A Dra. Cummings diz que o único cuidado que seus pelos pubianos precisam é um enxague com água ou uma lavagem com o seu sabonete de banho habitual. “Você não precisa de nenhum produto específico para os pelos pubianos, e eu definitivamente não recomendo duchas vaginais”, adverte ela, “porque o interior da vagina não precisa de nenhuma limpeza específica — ela é uma estrutura autolimpante.”

Vamos encerrar o assunto (este, pelo menos).

Parece que a tendência do full bush in a bikini é mais do que uma mania passageira de verão. É uma rejeição clara e orgulhosa de padrões de beleza arbitrários, feita para durar além das estações. Usar seus pelos com toda a glória é dizer: “Não vou me deitar numa maca de cera nem fazer malabarismo no chuveiro por sua aprovação.” E honestamente? É exatamente essa energia que todas deveríamos carregar — esta e todas as estações. Para sempre.

Salazar acredita que abraçar a si mesma sem desculpas está plantando sementes de confiança na próxima geração. “Estou no parque aquático com minha filha, e ela chama minhas pernas de ‘espinhosas’ — e fica orgulhosa. Ela vê meus pelos e acha que são fortes. Brinco que sou como uma nopalita, um cacto pequeno: suave e feminina, mas não mexa comigo ou vou te picar.”

E eu? À medida que envelheco e sinto a necessidade de pintar os fios brancos que despontam no topo da cabeça, fico me perguntando o que aconteceria se eu deixasse crescer lá embaixo também. Afinal, você pode ter cabelos grisalhos em qualquer lugar, né? Acho que um dia vou ter um corte assimétrico estilo Miranda Priestly, e talvez o tapete combine com as cortinas. E seja você do time full bush, fiel à listrinha, crente na total lisura ou firmemente no meio-termo, o ponto é este: é a sua escolha.

As tendências de beleza vão continuar indo e voltando, mas o seu corpo sempre vai ser seu — e essa verdade nunca sai de moda.


Com conteúdo de Women’s Health

Deixe um comentário